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terça-feira, 2 de julho de 2013

Fome - Capítulo 2 - O Novo Aluno

Segunda, o dia mais penoso do mundo.
Com um esforço sobrenatural levanto-me da cama e vou tomar o pequeno-almoço. Na cozinha já lá está minha mãe, um monte de suculentas panquecas e um copo de leite.
- Mmm que bom aspeto! Estou cheia de fome! - Disse enquanto devorava um monte de panquecas.
- E desde quando é que não estas com fome? - Perguntou rindo-se.
Encolhi os ombros e sorri. A fome humana nunca é tão intensa como a Fome de lobo, por assim dizer. A Fome é dolorosa, nunca mortal, mas enlouquecedora. Uma coisa que ninguém conseguiu perceber é porque precisamos de comida humana e de comer algo que bem, que esteja “vivo”. As melhores teorias dizem que, como somos metade animais, temos o instinto de comer o que matamos ou assim... Bem, apesar de todas estas suspeitas de uma coisa temos a certeza: temos de saciar a Fome, porque se não a saciarmos durante algum tempo, enlouquecemos e somos muito capazes de nos transformar em público e comermos a primeira coisa viva que nos aparecer. Mas, ao contrário do que as lendas dizem, não somos afetados pela lua cheia, ou prata, caraças nem sequer somos lobisomens, quer dizer transformamo-nos em lobos mas preferimos o termo metamorfos.
Depois do pequeno-almoço subi até ao meu quarto e vesti uma sweatshirt preta, as primeiras calças de ganga que me apareceram, as minhas all-star pretas e fiz o meu rabo-de-cavalo habitual.
Como ainda tinha tempo até serem horas de sair para ir para a escola, aproveitei para ver um pouco de televisão, mesmo que fossem só dez minutos. Os únicos programas que estavam a dar eram uma seca, por isso, decidi sair mais cedo.
A caminho da escola vi um alce escondido por entre a vegetação que me deu água na boca. É estranho mas nesta cidade é muito comum ver alces a vaguear pelas ruas. Para as pessoas normais são uma praga horrível e perigosa, mas para a minha família uma praga suculenta e deliciosa.
Aliás, os meus pais decidiram mudar-se de uma vila do Alentejo, uma região de Portugal, quando eu tinha mais ou menos seis anos, pois para alimentar uma família como a nossa uma ou duas vacas não davam e, se apanhássemos mais, os agricultores iam suspeitar. Por isso andámos pela Europa até que o meu pai apanhou o rasto de uns metamorfos amigos que estavam de férias na Alemanha e nos sugeriram vir para cá.
Eles também vivem aqui, na outra ponta da cidade, porem eles não se transformam em lobo mas sim numa espécie de humano com asas, dentes e ouvidos de morcego, que não se alimentam da carne mas sim do sangue das presas.
Os filhos dos amigos do meu pai, o Adrian e a Shioban, são os meus melhores amigos e as únicas pessoas em que eu posso confiar verdadeiramente.
Chego e seguidamente e entro na enorme escola de South Anchorage High School.
Não tenho aqui praticamente amigos nenhuns, apenas uma rapariga simpática que por vezes anda comigo, talvez por pena, a Sophie.
A maioria dos humanos seguem o instinto de se afastarem de nós por isso é difícil fazer amigos.
A campainha toca e vou para a aula de Inglês do primeiro tempo. Sento-me numa carteira sozinha e vou tentando prestar atenção á aula. A aula estava a decorrer normalmente quando se ouve um toque na porta.
- Entre! - Gritou a professora.
- Peço desculpa pelo atraso. - Um rapaz bonito de cabelo castanho-escuro espetado, olhos incrivelmente verdes, t-shirt de manga comprida preta, casaco de cabedal, botas de motoqueiro e um ar de bad boy irresistível entrou. - Sou novo aqui. Chamo-me Adam. Adam Hatten.
- Não faz mal. - Suspirou a professora obviamente incomodada pela interrupção. - Mmm... sente-se ali á beira da mmm... Alexandra.
Bonito...
Não me interpretem mal, o rapaz é muito giro mas, quanto mais tempo estiver junto de mim, mais me achará esquisita e terá medo de mim, tal como o resto da escola.
- 'lá! - Disse fazendo um sorriso encantador.
Fiquei surpreendida. A maioria dos humanos seguia o instinto de se afastar de mim, mas lá estava ele descontraído... só se ele fosse um metamorfo.
Funguei duas vezes e pelo cheiro, era um simples humano normal. Esquisito.
- Olá. - Respondi finalmente.

***

           -Então Alex, já viste o novo rapaz? É tão podre de bom! - Disse a Sophie alegremente sorrindo. 
- Sim, senta-se ao meu lado em inglês do primeiro tempo.
- Oh meu deus! E então?
            - Então o quê? - Perguntei confusa.
            - É tão fixe como dizem por ai?
- Sei lá. - Encolhi os ombros.
- Meu deus, se fosse eu a estar ao pé dele... - Disse ela com um olhar sonhador.
Revirei os olhos. A Sophie apaixonava-se demasiado facilmente e depois sofria, e bastante.
Fomos até à cantina buscar a comida e sentámo-nos numa mesa onde estavam umas amigas da Sophie. Sentei-me na cadeira mais distante.
- Já viste o novo rapaz Sophie? - Perguntou uma rapariga baixa, que se não me engano, chama-se Anna.
- Sim, é uma brasa. – Disse. - E sabes quem esta ao pé dele... a Alex!
- A Alex? - Olhou para mim com ar de “pobre coitado” mal disfarçado.
- Sim! Não é maravilhoso?! Ela pode pedir-lhe o número para nós! - Sorriu.
- Seria tão fixe! - Disse outra rapariguinha cujo nome já me esquecera.
Suspirei e revirei os olhos. Ao mesmo tempo o Adam entrou na cantina e fez um sorriso sedutor para umas raparigas que eram o total cliché de meninas populares: loiras, com quilos de maquilhagem em cima, decotes provocadores e shorts que mal tapam o rabo, que usavam mesmo estando um frio de rachar.
Só reparei que estava a olhar fixamente para ele quando a Stacia, uma das raparigas a quem ele sorriu, fez-me um sorriso de desdém e o seu clone mais burro, Avery ficou a olhar para mim como se fosse contagiosa. Mas o que me surpreendeu foi o facto de o Adam me olhar, bem, como se fosse normal, coisa que ninguém desta escola, sem ser a Sophie, fazia.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Fome - Capítulo 1 - A Caçada

Noite de lua nova, perfeita para caçar.
Com a visibilidade praticamente nula, o alce juvenil apenas se pode orientar através da sua audição e olfacto apurados, mas isso hoje não lhe vai servir de nada. O vento está a meu favor e sou praticamente inaudível.
Comendo a relva verde dos fins de outono, o alce está distraído. É a altura perfeita.
Com um lance rápido, o alce apenas se apercebe de mim quando a minha boca está a centímetros do seu pescoço. Com um golpe rápido mordo-lhe o pescoço e fazendo força separo-lhe a espinha, morrendo quase de imediato, o alce esvaíra-se em sangue.
Enquanto a carne ainda está quente devoro-lhe as coxas traseiras, onde a carne é mais tenra e menos gordurenta, raspando a pele com as patas. Termino a minha enorme refeição a meio, já satisfeita.
Não escondo o cadáver meio comido. Em tempos de escassez teria de o esconder para depois o comer, contudo, aqui, em Anchorage, no Alasca, os alces abundam, sendo mesmo considerados uma praga destrutiva.
Oiço um uivo distante, seguido de outro, e uivo também. São os meus pais e chegou a hora de ir para casa.
Correndo pela bonita floresta perto dos subúrbios, aprecio a sensação maravilhosa do vento no meu pelo preto.
Não demorei mais de cinco minutos até chegar à borda que separa a civilização da floresta, onde já lá está um enorme lobo preto do tamanho de um urso polar à minha espera, também conhecido por Laurence Wolford, banqueiro e meu pai. Pelo sangue no seu focinho, patas e barriga tinha feito uma excelente matança. Um lobo castanho chocolate muito mais pequeno que o meu pai e ligeiramente mais pequeno do que eu, a minha mãe, tinha chegado, e trazia um monte de roupas que estavam escondidas debaixo de uns arbustos, na boca.
Transformámo-nos. Apesar de ser um pouco constrangedor vestirmo-nos à frente dos nossos pais, para mim, já é habitual. Desde que era uma criança de sete anos, que quase nem à cintura do meu enorme pai de dois metros chegava, já andava a caçar coelhos e outros pequenos animais.
Fomos para o SUV do meu pai até à nossa simples mas espaçosa casa.
Depois de um longo, quente e delicioso banho fui-me deitar e aterrei logo.
A Fome está saciada...pelo menos por agora, ela volta sempre.


Espero que gostem!