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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Eddie - Parte 2

Olá gente! Desculpem!!! Isto atrasou-se devido às férias... muita coisa pa fazer, pouco tempo para a fazer... Era para ter sido publicada a semana passada, por isso peço imensas desculpas! Mas espero que gostem na mesma! =D


Eddie
Parte 2
Eddie abriu os olhos subitamente quando sentiu uma dor agonizante trespassar-lhe a cabeça. Tinha caído do sofá de Haley, novamente, e batido com a cabeça na mesa de café que se encontrava ao lado do sofá. Já era a segunda vez aquela noite que ele caíra do sofá por causa dos sonhos.
No primeiro, relembrou o dia em que fugiu de Apollo. Eddie era o cão doméstico de Apollo, treinado para ser o seu cão de guarda. Só era autorizado a estar na sua forma de liobo, então, quando fugiu, Karl teve grandes dificuldades em controla-lo. Ele atacava todos os que encontrava, basicamente, deixou o seu instinto animal tomar conta dele. Karl, durante estes dois mil anos, apenas teve tempo de lhe ensinar o básico: como controlar a sua animalidade, como manter-se na sua forma humana. Tinham dito a Karl que a sua missão era apenas de o manter vivo e mantê-lo sob controlo, já que não havia mais nada que pudesse fazer por ele. A profecia ditava que apenas a caçadora o conseguiria domar e, sim, a profecia tornara-se verdade. Desde que estava na companhia de Haley aprendera bastante. Mas não conseguia livrar-se daquela maldição que Apollo lhe lançou quando descobriu onde estava. Ter de ir à rua todos os dias… “Que treta!” Ele pensou.
Eddie caiu do sofá quando reviveu o feitiço que Apollo lhe lançara. Foi no preciso momento que o raio lhe caiu em cima, no sonho, que ele caiu do sofá. O sonho tinha sido tão real que ele saltou inconscientemente. Como ele detestava Apollo e tudo relacionado com os deuses gregos. Quando Karl o adoptou, deu-lhe uma escolha, coisa que nunca lhe tinham proporcionado. Ele era livre de escolher a sua religião. Como Karl era uma espécie de Cristão, ele decidiu ver como era essa religião, uma vez que já teria lido o livro sagrado enquanto era escravo. Tinha sido a primeira e última vez que Apollo lhe oferecera alguma coisa e só lho dera por ver que as blasfémias que aquilo continha não lhe interessavam.
Ele respirou fundo tentando esquecer o segundo sonho que resultara novamente numa queda. Respirar fundo não o ajudou a acalmar-se. Ele continuava bastante agitado porque tinha uma forte sensação que Haley não estava bem. Talvez fosse de não a ver há mais de 20 horas… Maldita reunião de caçadores. Levantando-se do chão, ele ponderava se haveria de esperar mais ou ir já atras dela quando um barulho na cozinha o desinquietou. Cheio de esperanças que fosse Haley, em poucos segundos já se encontrava na cozinha, apenas para ficar desapontado quando viu que o barulho provinha de um pequeno roedor que tinha sido capturado numa ratoeira. Este pensamento fê-lo relembrar logo de imediato o sonho que tinha acabado de ter que resultara na segunda queda. Esse sonho tinha sido que Haley estava no meio de uma emboscada e que se encontrava presa numa cela nos subúrbios da cidade, enquanto o seu caçador pensava qual seria a melhor maneira de a entregar: se viva ou morta. “Não!” Ele pensou. Mesmo que fosse mentira, ele iria atrás dela só para ter a certeza de que estava tudo bem, porque ele não conseguia livrar-se daquela sensação.
Saiu porta fora, trancando-a, e correu para o fim da rua. Uns trezentos metros mais à frente, ele estava na entrada da floresta. Transformando-se em liobo e depois de ter escondido a roupa que Haley lhe comprou numa mochila, atou-a a uma árvore. Agora seria mais fácil encontrar Haley. Era só seguir o seu rasto. Ela tinha um aroma a lima misturado com jasmim, madeira e um toque muito ligeiro a almíscar. Ou seja, irresistível, fresco, activo e não desaparecia facilmente, o que era mau por um lado porque, se alguém a quisesse matar ou encontrá-la, fá-lo-ia com muita facilidade. Mas nesse preciso momento, ajudava-o bastante. Se pelo caminho aparece-se algum un-dead, melhor.
Meia hora e bastantes quilómetros depois, ele tinha finalmente chegado a uma majestosa casa que se encontrava a cair aos bocados. A cor, outrora branca nos seus tempos de glória, agora estava num tom cinzento. Tinha quatro andares e perto de dez janelas viradas para a frente que estavam todas tapadas com tijolos. A porta da frente apresentava claramente marcas de que alguém teria forçado a sua entrada. Mantendo a sua forma de liobo, Eddie aproximou-se da entrada. Ao contrário de Haley, os un-dead tinham um cheiro a podre e a sangue fresco pouco activo, o que os tornava mais perigosos porque só dava para dar por eles quando estivessem dentro do campo de visão. Não havia avisos prévios. Isto seria para que ninguém encontra-se o seu “ninho” que daria ao sítio onde o chefe se encontrava. Era um pouco como as abelhas: havia as trabalhadoras que iam recolher o pólen para fazer o mel e a rainha. Os chefes eram como as rainhas e os un-dead eram como as trabalhadoras, só que em vez de recolher pólen, recolhiam “outro pólen”. Pelo que Haley e Karl lhe disseram, esta raça fazia parte dos caça-recompensas que decorria no subsolo. Se alguém quisesse uma pessoa ou coisa morta, bastava afixar cartazes e espalhar a mensagem. Dentro de poucos dias, senão fossem horas (tudo dependia do que fosse a presa), ela seria capturada. Claro que os un-dead eram só uma parte da rede. Os caça-recompensas mais inteligentes, normalmente usam os un-dead como isco só para ver se o predador é forte ou não, pois os un-dead são mesmo estúpidos. O caça-recompensas chamado Hunter era o pior. Todos tentavam segui-lo apesar de ser um ídolo para muitos, andava cá há bastantes anos e nunca tinha sido capturado. Ele era o número um das coisas mais perigosas que havia por aí. Ninguém sabia exactamente o que ele era, mas todos concordavam que não era humano… muito longe disso.
Mantendo todos os sentidos em alerta vermelho, ele entrou. Havia umas armadilhas lá colocadas que eram para humanos. Naturalmente, eles deviam ter esperanças que fosse um humano a ir salvar Haley. Saltando habilidosamente por cima delas, Eddie evitou uma morte ou captura para um humano. Ele, por esta altura, sabia perfeitamente que o seu segundo sonho não tinha sido um sonho. Quando chegou á gruta onde tinha sonhado que a Haley se encontrava, estava tudo igual ao sonho com uma excepção… faltava ela. Ele encontrou a sua M-16 no chão, o que não era bom sinal… Também estava na gruta um toque de cheiro a podre, o que significaria que ela não tinha sido levada há muito tempo, logo ainda teria hipótese de a salvar se chegasse a tempo. No meio do chão encontrava-se uma nota deixada por Hunter. Dizia:
“Para quem disser respeito,
                Eu raptei a Haley e se o Karl Gray não aparecer até às oito da noite de hoje, ela morre e de seguida continuarei a extinguir todos os caçadores até o encontrar.
Hunter”                       
Após o salto por cima de algumas armadilhas, Eddie encontrara-se numa encruzilhada. Haviam escadas para o próximo andar, um corredor à esquerda e outro à direita. O cheiro a Haley vinha de todas as direcções. Hunter tinha sido cuidadoso mas isso não o impediria de a salvar. Já se aproximava das nove da manhã e o sol já começava a brilhar. A luz que entrava pela porta era a única iluminação naquele sítio sombrio. Ele ainda não se tinha exposto ao sol nesse dia, o que o fez lembrar que morreria se não fosse a tempo. Também, isso não importaria desde conseguisse salvar Haley e ainda tinha sete horas pela frente. Tinha de calhar logo no dia mais curto do ano…
O cheiro encontrava-se mais intenso na direcção das escadas, por isso Eddie subiu o lance de escadas. No primeiro andar, encontrava-se o cheiro dela, mais intenso, em todas as direcções. Ela teria de estar por detrás de uma daquelas quinze portas. Será que teria de entrar em todas as portas? Lindo, não facilitam nada também…
Ouvindo um barulho proveniente do andar de cima, ele ficou alarmado, então entrou dentro da primeira porta á direita. Fechando a porta com o focinho, só teve tempo de se virar e encontrar três un-dead e a Haley a apontar-lhe uma pistola. Ele não acreditava no que se passava ali! O que raio estaria ela a fazer a apontar-lhe uma pistola?? Mesmo que não estivesse a apontar-lhe uma arma, havia qualquer coisa nela que não estava bem, ela tinha uma saia vestida. Isso não era nada normal! Ela contara-lhe que detestava estar de saia e que nem conseguia estar confortável de saia. Ora, aquela imitação barata estava bem confortável! Depois, também estava satisfeita de estar com uma Glock 17, tendo uma espingarda micro-SD preta e toda carregada de munições no canto do quarto. A Haley preferiria a espingarda… Isso então era o mais estranho! Ele não hesitou mais e atacou-os. A única maneira de Eddie os conseguir matar seria arrancar-lhes a cabeça com os dentes, que são venenosos para os un-dead. Mas, embora esta maneira fosse boa, ele preferia a técnica de Haley porque tinha uma munição especial que assim que perfurava o corpo dos un-dead, libertava umas toxinas, matando-os. Isto não exigiria qualquer contacto físico que poderia enfraquece-lo e até mata-lo.
Eddie avançou para o que se encontrava mais perto dele e, atirando-se a ele, derrubou-o e conseguiu arrancar-lhe a cabeça, espalhando sangue de um tom entre o vermelho e o azul pelo chão do quarto. Os outros dois, ao verem o que aconteceu ao amigo, avançaram para o matar mas ele, tendo reflexos mais rápidos, conseguiu dar uma patada a ambos, atirando-os ao chão como se fossem dominós. Enquanto ele tratava desses dois, um outro un-dead entrou. De início tentou proteger a Haley falsa mas, ao ver o que acontecera ao seu amigo, avançou para o liobo com uma faca, perfurando-lhe o ombro. Eddie ganiu, cheio de dores. Acabando de matar o que estava no chão debaixo dele, avançou logo para o da faca, que entretanto se afastara. Enquanto ele estava entretido com esses dois últimos un-deads do grupo de quatro, a Haley falsa saiu do quarto e fez soar o alarme. Eddie tinha acabado de matar o último un-dead que ali se encontrava quando múltiplas coisas aconteceram.
Uma voz disse “Alarme silencioso activado”, um ruido numa frequência muito baixa seguiu-se, provocando-lhe uma forte dor nos ouvidos, fazendo-o mudar de forma e deixar cair a bolsa que transportava. Neste momento estava com a M-16 e as munições que encontrou na gruta e os medicamentos que Karl lhe dera. O cheiro intenso a Haley que vinha de todo o lado deixou de existir, deixando apenas um rasto.
Ouviu-se o que parecia um tremor de terra a descer as escadas. Eddie só teve tempo de vestir umas calças que estavam num roupeiro lá do quarto e agarrar na M-16 da Haley. Naquilo, estavam uns dez un-deads na entrada do quarto. Eddie começou a disparar sobre eles. Tinha de apontar para a cabeça. Esse era o ponto fraco deles porque, embora as munições libertassem toxinas mortíferas, demorariam cerca de meia hora a morrer e neste momento todo o tempo era precioso. “Graças a deus que aquela arma era automática,” pensou ele. Nunca tinha usado uma arma, mas tinha visto um filme com Haley onde percebera como se fazia.
Depois de ter acabado com a vida daqueles un-deads, ele muniu-se das balas que estavam na sua bolsa, que estava caída no chão. Agora que tinha um pouco mais de sossego, reparou que em cima de uma cama estavam mais meia dúzia de armas que, pelo aspecto, ainda trabalhavam. Ele agarrou numa das M-16 que estavam a cair de podre… que irónico seria deixar este quarto com catorze corpos que cheiravam a podre, num quarto que já estava todo podre. Ele iria deixa-los no seu lugar legitimo.
Uma vez que a ferida do seu ombro já estava quase curada, devido a um líquido dourado que Karl lhe dera para curar feridas rapidamente, ele pôs a M-16 da Haley atravessada às costas a correia a passar de um lado ao outro do seu torso na diagonal. Agarrou na outra, que tinha pousado para se consertar, e retomou a sua busca.
Saiu do quarto, seguindo o rasto que sobrou após a activação do alarme. O seu olfacto não era tao forte enquanto humano como enquanto liobo mas era o suficiente para notar aquele cheiro no ar.
Quando chegou ao fim do corredor, ainda seguindo o rasto, havia mais um par de escadas. A única luz que as iluminava era o âmbar do alarme silencioso, que piscava como uma sirene da polícia.
Com a arma pronta a disparar, Eddie avançou pelas escadas, um degrau de cada vez, para que não cai-se nalguma armadilha que ali estivesse. Quando chegou ao topo das escadas, encontrava-se uma porta que abria para dentro. Pegando na maçaneta com a mão esquerda e na arma com a direita - dedo no gatilho – Eddie abriu a porta para encontrar mais um corredor vazio. Suspirando, avançou para o lado direito, sempre seguindo o rasto de Haley. Ao terceiro passo que deu, ficou repentinhamente cercado por Haleys, todas com os seus revolver apontados à cabeça dele.
- Olha quem nos veio visitar! Uma amostra de guerreiro. Ahhhh o Karl esta mesmo a ficar velho, já não treina como antes, como no meu tempo. Como as coisas mudaram…”
“Antigamente o Karl ainda dava luta quando capturava alguém das suas forças especiais com prémio na cabeça. Mandava um grupo ou dois dos suas elites capturar-me, claro que falhava e ainda ficava sem eles, mas olha, ao menos, entrego duas cabeças pelo preço de uma, das quais, uma é tão preciosa quanto Karl… ou talvez vos mate para o atrair, ainda estou por decidir. Claro que se o Karl aparecer em pessoa vocês iriam morrer sem qualquer tortura –  Continuou a voz mas com isto, um homem de cabelo de fogo, olhos verdes profundos, penetrantes, assustadores, apareceu entre as Haleys. Tinha uma presença determinada, uma pose de comandante, seguro de si mesmo. Estava sem dúvida na companhia do ilustre Hunter.
Três Haleys entraram para o meio do círculo em que me encontrava e obrigaram-me a pôr de joelhos, amarrando-me com uma corda. Por segundos, Eddie pensou que o fossem executar ali mesmo. Bem, tinha tido uma vida longa, preenchida… ahhh quem estaria ele a enganar! A vida dele tinha sido uma autêntica porcaria, durante séculos desejara nunca ter sido nascido. “Uma aberração!” Sempre lhe chamaram e com razão. Um cruzamento entre um lobo e um leão, imortal e com o poder de se metamorfosear para humano. Nem era o rei da selva, nem o da noite, nem o do dia. Ele não era nada até conhecer Haley. Tanto mudara… Esperança nascera. Coisa que lhe era desconhecida. Simplesmente vagueava pelo tempo, fazendo os recados ocasionais do seu “pai” Karl. Agora estava perto do seu fim. Grande diferença que faria…
Um dos un-dead, muitíssimo mal vestido, a tentar imitar um executador do século dezasseis quebrou o círculo. Trazia na sua mão um machado de guerra. O seu cabo era feito de madeira escura envernizada e a sua lâmina, que brilhava como a prata, continha uma espécie de símbolo celta da natureza. Naquilo um un-dead veio a correr com um pergaminho na mão. Hunter desviou a sua atenção do que se passava. Abriu o pergaminho e um ar aborrecido espalhou-se pela sua face. Ele suspirou e mandou o executador embora. Este, de tão zangado que estava por não trabalhar, mandou o machado contra a parede, cortando a cabeça de uma das Haleys ao meio, e foi-se embora. Após isso, Hunter mandou as Haleys livrarem-se dele, ou melhor, porem-no numa cela à espera de novas ordens.
- Hunter… - Eddie conseguiu balbuciar, captando a atenção do caça recompensas.
- Ah, afinal não sou tão anónimo como a tua colega dizia. Sempre há boatos, é bom saber.
Eddie tentou libertar-se das cordas quando Hunter foi para uma sala, mas a cada momento que passava, sentia as suas forças a sumirem-se. Também nunca conseguiria lutar contra as Haleys, mesmo que fossem só clones. Ele era incapaz de a ferir, mesmo que isso possivelmente o matasse. De repente, uma luz acendeu-se na sua cabeça e uma ideia surgiu-lhe mas no momento seguinte tudo se apagou. Eddie recebera uma pancada na cabeça que o deixara inconsciente.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Eddie - Parte 1

Olá pessoal! 
Não sei se se lembram do conto da passagem de ano: A Mudança do Ano, que se encontra na secção dos contos. Esse era um pequeno episódio da história que vou publicar agora para as férias grandes, como uma leitura extra! 
Publicarei a história, em principio, em 4 partes. 
Espero que gostem! =)

Eddie
Parte 1
Corria para longe. Precisava de uns minutos para me recompor após aquela caçada. 231 Era o total daquela noite, até agora. Avistei uma gruta onde parei por uns breves instantes… 232, um novo recorde. Bolas, tinham de ter chegado àquela cidade, logo agora! Até naquela gruta se encontrava um dos “un-dead”. Eram mesmo feios! Todos loiros, de olhos azuis, 1m e 90 de altura, todos musculados e andavam todos armados com uma pistola de mão da pré-história. Tinham bastante pele arrancada do trabalho que faziam mas o que os denunciava mesmo era serem todos iguais.
Há seculos que os caçava. Os chefes eram todos convencidos e arrogantes para os outros mas por alguma razão tinham um gosto especial por se atirarem a mim…. Literalmente atirarem-se a mim. Era logo à primeira vez que me viam. Parecem leões a caçar uma presa. O último saltou com uma catana na mão, aparecida do nada. Bastou-me baixar e carregar no gatilho da minha M-16… haveria festa mais logo à noite, pois os seus servos só podem sair a noite.
Aquele devia ter sido o equivalente a um Deus para os mortais. Os chefes por norma só têm até 80 servos, aquele já ia nos 232, não era o que esperava quando aceitei o trabalho desta vez. Eu não me importava de os caçar, é um trabalho que eu amo, mas já há mais de 100 horas que não dormia, não que necessite, mas o corpo já estranhava devido ao hábito humano que ganhara.
Naquela gruta acendi uma fogueira e preparei-me para dormir logo após ter vasculhado o perímetro, onde não encontrei nenhum perigo. Encostei-me a uma das paredes rugosas da gruta e refleti no que tinha acontecido naqueles últimos dias, pois tinham sido bastante agitados.
Começou comigo a chegar a casa após ter ido para a escola (há que manter aparências embora tenha um pouco mais que 17 anos). Ainda vinha meia dormente graças a aula de filosofia que tinha tido no último bloco. Essa aula era a que mais adorava, podia dormir e tirar vintes na mesma. Para quê ter de dar uma coisa que eu vivi, ainda me lembro desses bons velhos tempos em que todos iam a correr quando Platão dava as suas palestras. Isso sim eram aulas dignas de filosofia! Mas pronto, como ainda não inventaram uma maneira dos humanos viajarem no tempo, vão ter de levar com estas aulas secantes.
Assim que cheguei ao meu “lar doce lar”, fui diretamente para o meu quarto para dormitar um bocado na minha caminha com o edredom cor-de-rosa dos ursos me to you vintage, uma vez que mais tarde teria uma reunião de caçadores. Dou um passo sonolento dentro do quarto e deparo-me com um indivíduo em boxers, sentado na minha mesa-de-cabeceira com um abajur na cabeça. Apontei-lhe logo a minha Benelli Vinci shotgun que tinha escondida no guarda-roupa mesmo ao lado da minha adorável AK-47 e o meu vestido azul índigo escuro para baile de finalistas que se tava a aproximar. Como eu adoro estes novos tempos modernos.
Ele quase que morreu com um AVC.
- Hei! Na-a-a-ão me-me-me mates, por favor. Eu só estou aqui porque me mandaram. Disseram-me para te entregar esta carta.- Balbuciou ele, com a sua voz ligeiramente grave mas agradável. Retirando o abajur da cabeça, procurou a carta dentro de um tubo cilíndrico azul com uma correia.
- Toma. Foi o Sr. Gray que mandou com urgência. Também foi ele que me mandou pôr assim.
Eu não sabia que pensar daquilo. Pareceu-me duvidoso porque se o Karl quisesse falar comigo ter-me-ia vindo visitar pessoalmente, e quem no seu perfeito juízo mandaria um rapaz sentar-se na mesa-de-cabeceira com um abajur na cabeça…
Agarrei na carta, ela dizia:
“Querida Hales,
Como tu deves de saber, está para acontecer uma reunião de caçadores e agora, mais que nunca, é preciso andar de olho aberto. Penso que há um chefe aí na tua zona que está a tentar planear um ataque, acho que devias ir tratar desse assunto.
Beijinhos,
Karl
P.S.- Desculpa não puder ter ido aí pessoalmente falar contigo mas estou muito ocupado com as preparações. Ah! Mais uma coisa, não te esqueças de agradecer ao Eddie. Dá-lhe uma coleira nova.”
Assim que li a última parte da carta, percebi que não estava na companhia de um humano.
- Muito bem, isto explica muito mas não explica o porquê de estares em cima da minha mesa-de-cabeceira, com um abajur na cabeça e nesses preparos.- Dirigi-me a Eddie com firmeza, exigindo uma explicação.
Eddie, nervosamente, deslizou da mesa e sentou-se no chão ao pé do Peter, o meu peluche mega gigante que o meu pai me tinha oferecido no meu quingentésimo aniversário (também é a única vez que ele se lembra de mim), e girando o abajur em torno do seu dedo indicador esquerdo disse:
- Bem… hum… o Sr. Gray mandou-me esperar aqui sentado, na minha forma de liobo, para tu não me matares… eu entretanto fiquei aborrecido e… e… pus-me na minha forma humana, vestindo apenas boxers porque é o mais fácil de transportar, investiguei aquela coisa que estava na mesa. Nunca nos meus 3 mil anos de vida vi nada assim! Só que com o espanto, eu… eu… deixei cair e partiu-se e depois eu tentei juntar as peças mas não consegui e depois ouvi um barulho, eras tu a chegar, e depois assustei-me e depois fiquei nervoso e depois… depois agarrei no abajur e meti-o na cabeça, esperando que não desses por ela.
- E o candeeiro está…? – Perguntei-lhe, começando a sentir o sangue a ferver.
- Pois… eu como não sabia o que fazer, meti-o debaixo da cama.
BOA, o meu dia estava a correr “às mil maravilhas”. O meu candeeiro favorito com um urso pardo na relva (muito fofinho) que tinha sido feito de propósito para mim estava todo estilhaçado debaixo da minha cama onde dorme o Phylis. Agora como é que vou pedir que me devolva o candeeiro? Lá teria de sacrificar mais uma almofada toda psicadélica ou então a minha Nintendo 64.
- Eu não acredito… E o Karl ainda quer que te dê uma recompensa…- Suspirei, dirigindo-me à cama para tentar ver o que iria fazer a seguir. Pousado nela encontrava-se o livro “Romeu e Julieta”.
- O… que… é… que… o meu “Romeu e Julieta” está… aqui… a fazer? – Inquiri-lhe, tentando engolir sapos para não gritar. Era melhor que não lhe gritasse, depois quem ouvia era eu.
Ele esteve uns tempos a fitar-me e eu à espera de ouvir o pior…
- Bem, eu nunca vi um Romeo e Julieta e pensei que fosse para ler… Eu agarrei nele antes de acontecer o pequenino acidente com o candeeiro… li uma partezita mas não arranquei nada, está descansada.- Disse ele ficando mais relaxado à medida que a minha expressão facial ia suavizando.
Após uma breve meditação no meio dos meus ursos e almofadas fofinhas, virei-me para ele e disse-lhe: - Tu precisas de te vestir, eu preciso de escrever uma resposta à carta. Agora o que é que vais vestir?
Levantei-me e fui procurar roupa que lhe ficasse bem e servisse daquela que tinha lá por casa. Não teria grandes problemas em encontrar, uma vez que a altura dele era um metro e setenta… não fugia muito da minha. Pensei numa camisa aos quadradinhos em tons de azul e verde que me era grande e numas calças de ganga que comprei quando estava com intenção de pintar a casa. Elas eram-me largas e de certeza que lhe serviam!
Abri a porta do armário e arrumei a shotgun. Dei um ligeiro murro na porta ao lado e abri-a. A minha carabina Stoeger X10 de madeira, óptima para aqueles trabalhinhos de precisão que só uma sniper pode fazer, encontrava-se pendurada na porta e do lado de dentro as minhas camisas e camisolas pouco coloridas. Tirei a que se lhe destinava da minha colecção pessoal de camisas de trabalho (cor que dominava? Preto e verdes escuros e muitas outras cores escuras, necessárias para a perfeita camuflagem). De seguida, retirei da primeira gaveta da comoda as calças que estavam mesmo ao lado das granadas militares e entreguei-lhe a roupa.
- A porta é ao fundo do corredor à esquerda, despacha-te - disse-lhe severamente. Só assim é que ele me obedeceria… Detestava ser assim. Mandona.
Levantando-se relutantemente, ele agarrou na roupa e foi para a casa de banho. Eu sentei-me na cadeira da secretária situada do lado esquerdo da cama, encostada à parede e peguei numa folha de papel em branco.
                "Karl,
                Não te preocupes, ele não respirará (ou seja lá o que for que faz) por muito mais tempo.
Haley"
Só me vinha isto à cabeça.
Dobrei-a e meti-a dentro do porta-mensagens do Eddie. Logo de seguida apareceu ele. Até que não lhe ficava muito mal a roupa. A camisa combinava bem com o seu tom de pele moreno… sacudi a cabeça e pusemo-nos a caminho da loja de animais para lhe comprar uma coleira.
- Sabes, o teu “Romeo e Julieta” é muito mórbido: “Oh! Antro abominável, seio da morte, que tragaste o mais precioso manjar que a Terra possuía. Eis como eu forço as tuas maxilas podres a abrirem-se, e contra a tua vontade te faço engolir uma outra presa”. Como é que pode haver pessoas que gostem disso? Todos os Romeos e Julietas que li até agora são todos mórbidos. O último estava dividido em 40 livros ou uma coisa parecida, e falava do início da Terra, de um indivíduo receber uma tabuleta de mandamentos, separou o mar, houve uma praga que matou muita gente, uma cheia em que um homem fez uma arc…- estava Eddie a dizer, à medida que passávamos um cemitério, antes de eu o interromper.
- Tu leste a Bíblia?? Todos os 76 livros?? Não tens mais nada que fazer na vida? Já agora, como é que acabaste de recitar um verso completo do meu livro?- Disse-lhe pensando como é que ele tinha conseguido fazer aquilo tudo… nota-se bem que não batia bem…
- Sim, não, sim, memória fotográfica- Respondeu-me com a maior descontracção – Sabes, também só existem perto de 40 livros, não deves ser da mesma religião que eu.- Continuou ele fazendo-me lembrar a Mad. Ela era do tipo sabichona.
Comecei a pensar no que ele tinha dito. Aquilo eram tudo coisas que aconteceram no velho testamento… o que quer dizer que só tinha lido o velho testamento!
- Há quantos anos leste esse livro?- perguntei-lhe começando a pensar que ele não tinha a idade que pensava.
- Há volta de 2 mil e poucos anos.
- AH… isso explica tudo… também nunca ouviste falar de Jesus…
- Hum… não, nem por isso…- ele disse, confirmando as minhas suspeitas.
- Ah, bem sabes, apareceu cá na Terra um homem que fazia milagres e então diziam que ele era o filho de Deus, e então há uma grande nova parte na Bíblia.- Continuei-lhe a explicar o resto do caminho quem era Jesus e o que tinha acontecido. Ele foi-me fazendo cada vez mais perguntas.
Eventualmente, chegámos à loja dos animais. Eu conhecia bem a dona da loja, pois já não era a primeira vez que lhe pedia para me fazer uma coleira com dimensões gigantes ou encomendava comidas fora do vulgar para animais.
-Boa tarde, pode fazer-me uma coleira dourada, o dobro do tamanho do pescoço de um lobo normal?- O dourado iria condizer muito bem com a cor do pêlo dele. O pêlo médio, curto dele teria tons de castanho chocolate, tal como o seu cabelo quando estava na sua forma humana. Também ficava bem com a cor dos seus olhos: dourados na forma de liobo e cor de mel na forma humana. Era mesmo lindo em ambas as formas…
- Isso vai demorar 4 ou 5 dias a ser feita - informou-me a dona, acordando-me do meu transe…
Eia a coleira… Espero que o Eddie amanha não se esqueça de a ir buscar.
Naquilo ouvi um barulho vindo do lado de fora da gruta. Agarrei na M-16 e fui até à entrada da gruta. Não vi nada de perigoso.
Não havia sangue, nem o cheiro a podre, característico de um “un-dead” que teria lá passado há pouco tempo. Não, ali não tinha passado nenhum “un-dead”. O ar tinha um aroma doce, suave, quente… fazia-me lembrar o rasto que o Eddie deixava. Eddie… Suspirei. O que estaria ele a fazer… como seria tão bom estar com ele em vez de estar aqui atrás deste chato. Ele era simplesmente lindo. Adorava vê-lo na sua forma de liobo. O seu pêlo e aura ficava radiante quando ele estava alegre, mas quando estava triste o seu pêlo perdia a vida, ficava sem brilho, era plano… detestava vê-lo assim. Ele tinha a característica do seu pêlo mudar consoante o seu estado de espírito. Tal como o facto de ter de ir para a rua pelo menos uma vez por dia, senão morria, graças a uma maldição que Apollo lhe lançara. Coitado, gostava mesmo de puder fazer algo por ele… até não é mau rapaz, só precisa de ser ensinado, coisa que Karl não se preocupou em fazer desde que Eddie fugiu de Apollo e Karl o adoptou há cerca de um ano.
Voltei para dentro da gruta. Uma voz, que conhecia bem demais, disse, rindo-se – Não estava à espera que parasses já aqui. Destes ter tido uma noite muito cansativa para teres parado nas redondezas da cidade, no meio de uma caçada.
Agarrei na M-16 com mais força e apontei-a para trás de mim, ficando arma-à-cara com um homem magro, cabelo cor do fogo, de olhos verdes com um tom sinistro. No momento seguinte estavam trinta abutres, vindos do nada, em meu redor. Estava cercada.